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17-04-2009

Marian Festugatto de Souza: Psicooncologia: uma vertente da Psicossomática

A Medicina Psicossomática visa tratar o sujeito como um todo, corpo, mente, espírito, ambiente, cultura, sociedade, ou seja, um ser inteiro, complexo, que influencia e é influenciado pelo meio em que vive.

Desde a Grécia antiga, sabe-se da influência que os aspectos emocionais exercem sobre a saúde e a doença e vice-versa, sendo impossível tratar do corpo sem pensar na alma. Sócrates diz: "...assim como não é possível tentar a cura dos olhos sem a cabeça, nem a cabeça sem a do corpo, do mesmo modo não é possível tratar do corpo sem cuidar da alma, sendo essa a causa de desafiarem muitas doenças o tratamento dos médicos helenos, por desconhecerem estes o conjunto que importa ser tratado, pois não pode ir bem a parte quando vai mal o todo". Porém, com o passar dos anos e as novas descobertas, especialmente, no campo da ciência, surgiu, com Descartes, uma tendência à fragmentação. O dividir para reduzir, e assim conhecer. Essa era uma prática de outras áreas do conhecimento, transferiu-se também para a Medicina. Instituiu-se a dicotomia corpo-mente, e ainda subdividiu-se o corpo em vários pedaços menores. Em se tratando de saúde/ doença, se trata a doença, e não o doente. E a herança disto ainda se mantém, o que pode ser visto, por exemplo, no grande número de Especializações dentro da área médica. Um oftalmologista trata os olhos do paciente, um oncologista vai tratar o câncer, e assim por diante. O que é visto é mais a doença do que o sujeito em si. No entanto, tudo ocorre em ciclos, e há um movimento que tende a resgatar aquela visão anterior de ser humano, como um ser uno, indivisível. E isto graças também à ciência, à pesquisa e às novas descobertas tecnológicas, as quais comprovam muitas afirmações dos antigos filósofos.

As teorias de Einstein, bem como estudos na área da Psiconeuroimunologia mostram a influência não apenas do meio sobre o ser humano, mas a influência que este (ser humano) exerce no meio em que vive. Além disto, demonstram a capacidade, que cada um possui, de agir e influenciar diretamente sobre seu próprio sistema imunológico e que em tudo no universo, a parte contém o todo, mas a junção das partes forma algo diferente do todo. Confuso? São mudanças de paradigmas! E, com esta visão, temos a Medicina Psicossomática, que visa à compreensão do ser humano como um todo, considerando os sistemas psíquico, somático, social e cultural. E, como sua vertente, há a Psicooncologia.

A Psicooncologia visa ao entendimento global do paciente oncológico e de seu processo de adoecimento, bem como oferecer suporte emocional aos familiares e profissionais da saúde, os quais lidam com esta doença.

O câncer é uma doença cuja causa é um somatório de fatores. Não há como negar a influência que os fatores emocionais, somados a vários outros, exercem sobre a doença e o percurso que esta virá a tomar.

Leshan coloca: "O câncer pode ter suas origens nas tensões ou distúrbios emocionais. A depressão e o desespero podem deixar marcas não apenas na mente, mas também no corpo". No entanto, quando falamos na influência do emocional, devemos sempre lembrar que é "um" fator, e não o "único" E que a influência da emoção em relação ao câncer não se dá por via tão direta, ou seja, não é que aquela mágoa guardada se transformou em câncer de mama, ou que a raiva contida manifestou-se através de um tumor de pâncreas. Isso pode ocorrer, mas de um outro modo. Na verdade, pensamentos e sentimentos agem diretamente sobre o Sistema Imunológico, fortalecendo-o (quando são positivos) ou enfraquecendo-o (quando são ruins). Isto, "somado" a outros fatores preexistentes, pode contribuir para o adoecimento. O mesmo ocorre com os efeitos colaterais da quimioterapia, que acabam variando de acordo com a sensibilidade de cada paciente, bem como ao modo como ele decide encarar o tratamento, se como um sofrimento, ou se como algo que vai contribuir para ajudá-lo a melhorar.

À medida que fatores emocionais influenciam no processo de adoecimento, pode-se pensar na relação prevenção versus emoção e, a partir daí, perceber o trabalho da Psicooncologia, também, com um foco preventivo.

Alguns estudos, como os realizados pelos hospitais John Hopkings e Kings College, descrevem os efeitos da repressão das emoções e da desesperança sobre a saúde. Simonton, médico americano, interessando-se pelos estudos de biofeedback, descobriu que algumas técnicas de visualização ajudavam as pessoas a influenciar seus processos internos. Quando ensinadas aos doentes cancerosos, ajudavam a si mesmos a detectar e destruir a doença, em conseqüência, fortalecer as defesas naturais do corpo. Seu trabalho mostra o quanto nossa reação ao stress e outros fatores emocionais podem contribuir para o início e a progressão de um câncer e como expectativas positivas, consciência e cuidado consigo mesmos podem contribuir para o controle e até a cura da doença. Neste trabalho, o sujeito é visto como o próprio agente de cura. Hoje, existem cursos de formação no Método Simonton, nos Estados Unidos, Alemanha, Polônia, Japão e Itália.

Conhecer a Psicooncologia  é uma forma de compreendermos a nós e ao outro de uma forma mais ampla (tendo câncer ou não). É um modo de desmistificar o câncer, deixando para trás culpas, medos e inseguranças.

 

 

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