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09-09-2008

Marian Festugato: Viver mais e melhor!

 

              A velhice é considerada como a última fase do curso vital, determinada por eventos biológicos, psicológicos, culturais, sociais e espirituais. O "envelhecer" é um processo de mudanças universais que ocorre com todos os seres vivos que dependem da natureza genética, sociológica, sócio-histórica e psicológica.

            Questões culturais acabaram por criar diversos termos com os quais referir-se a esta fase do desenvolvimento. Dessa maneira, a expressão "velho" ficou associada a algo gasto, inútil, sem utilidade e até ultrapassado. Durante muito tempo, essa era a conotação dada ao que hoje preferimos chamar de "idoso" (palavra que se associa à respeito, longevidade e tradição). Ficar velho, portanto, era sinônimo de rejeição, tristeza e sofrimento. Doenças comuns a esta faixa etária, como osteoporose, depressão, Alzheimer e outras, tornavam este período ainda mais doloroso, tanto do ponto de vista físico como emocional.

            Com o advento das novas tecnologias, os avanços nas áreas médica e biológica e as mais diversas pesquisas desenvolvidas acerca da qualidade de vida, o ciclo vital foi se alongando e hoje as pessoas vivem cada vez mais. Surgiu a expressão "terceira idade", termo importado do francês "troisème àge", que buscou identificar os velhos (idosos) como um grupo de "jovens velhos". Considerou-se, assim, a "Terceira Idade" como aquela a que pertencem as pessoas com mais de 60 anos, e passou-se a desenvolver programas para esta faixa etária. Foram criados clubes, grupos, e aos poucos se criou outra visão da população desta faixa etária. Mas a vida continua, e as pessoas estão chegando aos 70, 80, 90, 100 anos. Fala-se na Quarta Idade e esta "hiperpopulação" de idosos preocupa. Afinal, é mais gente para consumir, menos para produzir. Mas quem disse que precisa ser desta forma? Hoje em dia, envelhecer deixou de ser sinônimo de adoecer! Investindo na sua saúde e na qualidade de vida, as pessoas da terceira idade podem, também, produzir! E não me refiro ao trabalho e à não - aposentadoria! Mas por que não aproveitarmos sua sabedoria?

Obviamente, o envelhecimento da população traz consigo problemas, mas tudo é passível de resolução, ou ao menos, de amenização. E, dentre eles, gostaria de discorrer acerca de um específico: quanto mais a população envelhece, ou melhor, quanto mais se vive, mais chances há de adquirirmos um câncer ao longo de nossas vidas. Estatísticas já apontam o câncer como uma doença com tendência á cronificação. Além disso, estudos apontam que, no futuro, não haverá uma pessoa sequer que não tenha tido câncer ou que ao menos não conheça alguém que tenha passado por esta doença. Afinal, quanto mais tempo se vive, mais tempo se tem para adoecer. E como prevenir isto?

            Primeiramente, acredito que para que nos permitamos ter um desenvolvimento saudável, não devemos deixar que o próprio medo do adoecimento tome conta de nossos pensamentos. Em se tratando especificamente da população idosa, urge que se invista em qualidade de vida, e na busca por um envelhecer saudável, levando aqui em conta aspectos físicos, nutricionais, sociais, emocionais e espirituais. Seria importante salientar que a harmonia entre os aspectos acima citados é básica para a saúde, e que isto não se aplica apenas à saúde da mente e do corpo, mas também aos relacionamentos consigo mesmo, com a família, com os amigos e com todo o mundo que os cerca. Também é necessário reconhecer seus limites e respeitar suas individualidades. Do ponto de vista emocional, a prevenção de doenças como o câncer está diretamente ligada a um autorizar-se, a um permitir-se viver! Guimarães (1999) coloca que o envelhecer com sucesso "implica um pouco de sorte, mas depende, principalmente, do desejo de viver mais e melhor".  Prevenção tem a ver com desejo e emoção e os efeitos da repressão das emoções e da desesperança sobre a saúde foram descritos em vários estudos, dentre eles, estudos dos hospitais John Hopkings e Kings College (APUD: Simonton, 1994). Está ligada diretamente com o modo de encarar e enfrentar o que a vida tem a oferecer. A maneira mais positiva ou mais negativa com que cada um encara a velhice e suas limitações é o que faz a diferença. Falar sobre o que incomoda, não guardar mágoas ou rancores, saber dizer não... Isto é prevenção! Deixar pré-conceitos de lado, ir ao médico com freqüência, fazer os exames solicitados sem medo ou vergonha, substituir o pensamento: "quem procura acha", por: "acha a tempo de resolver" e, assim, vencer o tabu "check up". E o mais importante, talvez, seja compreendermos que prevenir nem sempre significa "não adoecer". Mas prevenir-se também é não mergulhar no sofrimento, e fazer também do adoecimento, uma oportunidade. Uma oportunidade de viver e um período de aprendizado.

            Finalizando, justifico a minha escolha por falar deste tema por presenciar todos os dias que a população envelhece, mas não perde a garra, a vontade de viver. Viorst (2002) diz que "a velhice traz muitas perdas: muitos são contra essas perdas. Mas outra opinião mais animadora diz que, se as perdas são realmente lamentadas, esse lamento nos liberta e pode nos conduzir a liberdades criativas, desenvolvimento, prazer e aptidão para abraçar a vida". Os idosos também têm sonhos, metas e desejos. E cabe a nós, profissionais da saúde, autorizar-lhes a ir à busca da realização destes desejos. Afinal, muitas vezes eles nos imploram, com um simples gesto ou com um singelo olhar, por uma permissão.

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