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03-01-2008

Juliana Hack: Qualidade de vida e câncer

 

Nas últimas décadas, principalmente a partir dos anos 90, o interesse pelo conceito e avaliação de qualidade de vida vem aumentando significativamente na área da saúde. O que tem contribuído para mudança de paradigmas, para humanização e para superação de modelos de atendimento restritamente biomédicos, que negligenciam aspectos socioeconômicos, psicológicos e culturais.
Outro fato importante é o envelhecimento da população, pois a medida que aumenta a  expectativa de vida, aumenta a incidência de doenças crônico-degenerativas. Porém, os avanços tecnológicos são crescentes e as possibilidades de cura e controle destes agravos são cada vez maiores.
No entanto, não tratamos doenças e sim, pessoas.
De que adianta "acrescentar anos à vida, sem dar vida aos anos"?!
Avaliar o impacto físico e psicossocial que as enfermidades, disfunções e/ou tratamentos podem acarretar se faz necessário. A compreensão da qualidade de vida dos pacientes deve incorporar-se ao trabalho do dia-a-dia das equipes multidisciplinares, influenciando as decisões e condutas terapêuticas. Além de possibilitar uma maior troca entre os profissionais, pacientes e familiares, que somam esforços e conhecimento na busca dos melhores resultados.
Atualmente, existem vários instrumentos validados para avaliação de qualidade de vida, não só para portadores de patologias, mas também para população em geral. Já que através deste indicador também é possível determinar políticas públicas, alocação de recursos e até mesmo aprovação de novas drogas e materiais.
Mas afinal, o que é qualidade de vida?
Segundo a Organização Mundial de Saúde, "qualidade de vida é a percepção do indivíduo de sua posição na vida, no contexto da cultura e sistema de valores nos quais ele vive e em relação aos seus objetivos, padrões e preocupações". Em outras palavras, é a satisfação geral do sujeito com a vida e sua percepção pessoal de bem estar.
Qualidade de vida e estado de saúde não são sinônimos.
Podemos concluir então, que o conceito de qualidade de vida é SUBJETIVO E MULTIDIMENSIONAL e que a qualidade de vida é influenciada por fatores socioculturais.
A qualidade de vida só pode ser avaliada pela própria pessoa, baseada nas suas percepções físicas, psicológicas, socioculturais e ambientais.
Na Oncologia, este tema é de total relevância, pois o diagnóstico e o tratamento do câncer tem repercussões em todas estas dimensões da existência humana.
Por tratar-se de uma doença potencialmente fatal, não conseguimos dissociar o câncer da idéia de sofrimento e morte, mesmo que a realidade seja outra. E isto, por si só, pode trazer prejuízos a saúde emocional e ao processo de reabilitação. Sentimentos de angústia, tristeza, ansiedade, desespero, fragilidade... podem ser experimentados intensamente, são "normais", mas precisam ser trabalhados para facilitar o processo de adaptação e enfrentamento. Emoções negativas provocam efeitos químicos prejudiciais ao organismo, podendo dificultar inclusive o tratamento de sintomas físicos.
Por outro lado não podemos ignorar que as terapias antineoplásicas são ameaçadoras, frequentemente agressivas, invasivas, causando sensações desagradáveis, limitações físicas, alterações na vida cotidiana e nas relações interpessoais, dificuldades econômicas e disfunções sexuais. Enfim, fatores que podem contribuir para uma percepção negativa da qualidade de vida. Temos que ficar atentos a estas situações, para poder prevení-las e manejá-las.
Não é possível saber como cada um vai reagir, mas sempre é possível intervir! Encontrar formas de lidar com as dificuldades e resolver os problemas.

Para isso, é fundamental fazer algo por si mesmo, buscar apoio, aceitar apoio, cultivar a espiritualidade, informar-se, comunicar-se, cuidar-se! Adotar uma atitude positiva faz toda diferença.
Ter qualidade de vida é viver de forma saudável.



 

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